Entrevista exclusiva com Brandon Lee no Brasil

Como se sabe, Brandon Lee morreu no dia 31 de Março de 1993 em um acidente no set do filme “O Corvo” (The Crow). Brandon já havia declarado diversas vezes que não desejava seguir os passos de seu pai, mas afinal ele era filho de Bruce Lee e, ver seus filmes, sempre foi um prazer. Em 1992, Brandon esteve no Brasil para promover seu filme “Rajada de fogo”. Na oportunidade, ele foi entrevistado por Sérgio Martorelli, da revista Cinemin. A entrevista é uma oportunidade para se saber um pouco mais sobre o ator, ei-la:

“Oi, eu sou o Brandon” – diz ele, humildemente, e chama este repórter para ver um pequeno milagre da natureza pela janela do hotel. Quem diria: Brandon Lee, filho de Bruce Lee e responsável por uma bela distribuição de tabefes no recente “Rajada de fogo”, se emociona ao descobrir um ninho de pombos, feito com canudinhos de refrigerantes, na varanda do hotel Meridien. Adepto da filosofia indiana, Brandon é um jovem bem humorado, inteligente, e um tanto cínico quando fala da indústria cinematográfica; mas as duas coisas que mais o incomodam são as comparações com o pai e o excesso de violência nas telas. Confiram.

SM – ANTES DE ESTREAR NO CINEMA, VOCÊ ESTUDOU TEATRO COM LEE STRASBERG, ERIC MORRIS E LYNETTE KATSELAS; QUE TRABALHOS DESTE PERÍODO VOCÊ DESTACARIA?

BL – Gostei muito de atuar em “When you come back” e “Red Hider”; é um grande peça, e adorei fazê-la.

SM – E COMO FOI SUA TRANSIÇÃO PARA O CINEMA?

BL – Pode-se dizer que tive uma carreira muito rápida e muito curta, até agora: consegui o papel principal já em meu primeiro filme “Legacy of Rage”, rodado em Hong Kong; logo em seguida, fiz “Massacre no bairro japonês”, ao lado de Dolph Lundgren. Foi minha estréia no cinema americano.

SM – E QUE TAL?

Foi legal, embora o ângulo comercial e industrial de Hollywood me irrite um pouco. Lundgren é uma boa pessoa para se trabalhar e, apesar de ele ter sido o astro principal, não me importei, porque os melhres diálogos ficaram para mim! (risos)

SM – E AGORA VOCÊ É O ASTRO DE “RAJADA DE FOGO” QUE, INCLUSIVE, FOI ESCRITO PARA VOCÊ.

É. Gostei muito deste filme, especialmente das sequências de ação, que tive a oportunidade de coreografar; é o tipo de filme que faz as pessoas saírem do cinema dizendo “uau” e imitando meus golpes!

SM – E QUANTO A VIOLÊNCIA NESTE TIPO DE FILME?

É uma coisa que realmente me incomoda: nas recentes fitas de ação, há mais interesse em mostrar violência gráfica, explícita, do que uma boa história. Recentemte assisti a um filme de Steven Seagal e fiquei indignado com uma cena em um sujeito têm o braço quebrado, e o osso sai pela pele! Não sou obrigado a ver uma coisa dessas!

SM – ENTÃO VOCÊ DEVE TER DETESTADO “A MOSCA”, DE CRONEMBERG…

BL – Mas isso é diferente: “A Mosca” é um filme de terror, e a função de um filme de terror é fazer seu estômago revirar. Mas, num filme de ação, uma sequência dessas não faz sentido! Em “Rajada de Fogo”, há violência, mas sugerida; um sujeito têm o nariz quebrado, você vê o sangue, mas não vê os ossos dele saindo pela testa; pessoas são baleadas, mas nenhuma delas têm os olhos arrancados a tiros ou coisa do gênero. Hoje em dia, os produtores e diretores de filmes de ação parecem estar competindo para ver quem faz a melhor cena de destruição, a melhor mutilação….

SM – E ISSO É UMA TENDÊNCIA GERAL? HÁ FILMES QUE TRATAM A VIOLÊNCIA EXCESSIVA COM CERTO HUMOR, COMO “MÁQUINA MORTÍFERA 3”.

BL – Detestei Máquina Mortífera 3! Detestei mesmo! É estúpido! Mel Gibson sai do carro, olha para o lado, e um crime é cometido! Mel Gibson vai comer um hamburger, vai ao banheiro, olha para o lado, e um crime acontece! Isso é história? Não, apenas pretextos para cenas exageradas de ação e uma centena de dog jokes. Sabe o que são Dog Jokes? É quando, num filme, alguém diz uma piada ruim, corta para um cachorrinho cobrindo os olhos com as patinhas, e a platéia cai na gargalhada! Ridículo!

SM – MAS ISSO VALE PARA TODOS OS FILMES DE AÇÃO?

BL – Vale, sim. “Máquina” é terrível. “Alien 3” pavoroso. “Soldado Universal”, idem. “Batman, o retorno”, é razoável, mas..bem, há muitas reclamações sobre as liberdades que tomaram com os personagens, e o filme têm seus momentos. O grande problema é que, nas fitas de ação, ninguém se preocupa com os personagens, como eles vivem…Daí o resultado é como se estivéssemos vendo luzes na tela, meras explosões e tiroteios.

SM – FALANDO EM BATMAN, SEUS DOIS ÚLTIMOS FILMES TÊM CERTA INFLUÊNCIA DOS QUADRINHOS.

BL – É verdade. Sabe um personagem que eu gostaria de interpretar nas telas? O Wolverine dos X-Men (Nota: O personagem acabou sendo interpretado por Hugh Jackman em recente adaptação para as telas).

SM – TALVEZ VOCÊ TENHA A CHANCE DISSO – AFINAL, AGORA VOCÊ É CONTRATADO DA CAROLCO, QUE PRETENDO PRODUZIR OS FILMES DO X-MEN…

BL – Na verdade, a Carolco não vai produzir nada tão cedo; ela foi a falência.

SM – VERDADE? MESMO COM O SUCESSO DE “O EXTERMINADOR DO FUTURO”?

BL – Na verdade, foi por causa do “Exterminador 2” que ela faliu. Foi um filme muito caro, um investimento muito arriscado. Assinei um contrato com a Carolco, mas só vou começar a filmar para eles assim que tiverem dinheiro. Tanto que meu próximo trabalho, “O Corvo”, é pela Paramount.

SM – OUTRA FITA DE ARTES MARCIAIS?

BL – Não, completamente diferente. É um thriller sobrenatural, interpreto um astro de rock que é assassinado, mas volta para se vingar. Será dirigido por Alex Proyas, um diretor australiano novo e muito talentoso.

SM – QUEM VAI CO-ESTRELAR?

BL – Não sei. O filme ainda não entrou em produção. E por isso não gosto muito de falar de meus projetos futuros.

SM – MAS, AGORA QUE VOCÊ ESTÁ EM HOLLYWOOD, COM QUEM GOSTARIA DE TRABALHAR?

BL – Adoraria trabalhar ao lado de Robert de Niro, Robert Duvall, Gene Hackman e Gary Oldman, e ser dirigido por Martin Scorsese, Paul Verhoeven, James Cameron e Woody Allen, desde que ele fique longe de minha namorada (risos) – Vocês no Brasil, souberam o que aconteceu entre Woody e Mia Farrow?

SM – Já.

BL – Ele têm um filme novo, “Husbands and Wives”, só que tiveram de trocar o título.

SM – MESMO? PARA QUAL?

BL – “Honey, I fucked the kids” (risos). Não, brincadeira, adoro Woody Allen.

SM – SEU PRÓXIMO FILME, É UM THRILLER DE TERROR, O QUE SIGNIFICA UM AFASTAMENTO DOS FILMES DE ARTES MARCIAIS…

BL – Mais ou menos. Daqui a uns vinte anos, eu gostaria de interpretar o personagem principal de “Shibumi”, um livro de Trevanian; mas agora não tenho idade para isso.

SM – E QUANTO ÀQUELES QUE ESPERAM QUE VOCÊ SEJA UM SUCESSOR DE BRUCE LEE?

BL – Não gosto de ser comparado a meu pai. É uma coisa que me deixa zangado. Tenho meu próprio valor. Soube que, no Brasil, meu primeiro filme recebeu um título que o relacionava diretamente as fitas de meu pai. Considero isso uma exploração barata e de baixo nível. A propósito considero o pessoal responsável pela divulgação de filmes, uma raça inferior as baratas, e isso não é só no Brasil!

SM – MAS ESSE TIPO DE EXPLORAÇÃO AS VEZES TÊM RESULTADOS ENGRAÇADOS. VOCÊ SOUBE DO ENTERRO DE FREDDY KRUEGER?

BL – É, soube. Acho que, para meu próximo filme, vou participar da campanha publicitária, pulando do alto de um prédio e morrendo! Não vai ser muito bom para o resto da minha carreira, mas que vai fazer multidões assistir a fita, isso vai! (risos)

Nota: Brandon Lee morreu no dia 31 de Março de 1993, poucos meses depois de ter vindo ao Brasil divulgar “Rajada de Fogo”. E, certamente, triste e irônico, o comentário final de Brandon nessa entrevista.

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Postado por: Vinícius Lee

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