Jesse Glover, o primeiro aluno de Bruce Lee fala sobre o mestre e a sua arte

Outro dia tive uma discussão interessante com um amigo sobre Bruce Lee e as coisas que eu havia aprendido com o HOMEM. Durante a conversação enumerei a maior parte dos fatores que tinham, eu penso, feito dele o que foi. Primeiramente, tinha o dom de simplificar, de encontrar a principal essência de algo complexo. Segundo, tinha sua rapidez natural para mover-se e seu dom para imitar, fisicamente, cada movimento que via. Terceiro, possuía a motivação que o guiava nessa prática: o receio e o desejo de ser o melhor; o temor de que pudesse um dia encontrar uma cópia dele. Ele sabia que, se fosse o melhor, muitas coisas não correriam o risco de acontecer.

A quarta qualidade que o levara a grandeza era o dom de estar no lugar certo na hora certa. Começou seu aprendizado na tenra idade onde se é impressionável, na grande época do Wing Chun. Seus instrutores faziam parte dos melhores combatentes dessa arte e sua presença em alguns de seus combates de rua lhe deram uma visão prática de onde queria chegar e do caminho que deveria seguir. Em último lugar, o que o conduziu a grandeza foi ter chegado na América numa época em que as artes de combate do Extremo Oriente ainda eram desconhecidas do grande público. Era o momento ideal para um jovem expert como Bruce, vindo de um sistema avançado como o Wing Chun. Ele falava do Wing Chun como se fosse um conjunto das melhores técnicas dos sistemas duros e ágeis. Combinando todos esses fatores com uma boa dose de sorte, vocês têm a explicação do que tornou Bruce célebre.

Quando voltou aos EUA, as artes marciais eram mal representadas nesse país. As que prendiam a atenção do público eram o Jiu Jitsu, o Judo e o Aikido. Em cada uma dessas artes havia uma forte adesão aos dogmas do passado. Em outras palavras, era necessário preencher várias formalidades para ser aceito em uma delas. Em primeiro lugar, havia o processo de avaliação ao qual cada um deveria se submeter, seguido por uma série de regras regendo a conduta, na escola e na rua. O combate era proibido e o respeito ao professor e a arte era da mais alta importância. Tal era a situação em que Bruce Lee se encontrava. O que ele sentiu, então, foi como uma espécie de vaga rebelião. De vontade própria, havia deixado uma situação de estudante em Hong Kong que julgava desagradável pela lentidão de transmissão do saber.

No seu espírito, essa situação que havia deixado em Hong Kong era semelhante a que encontrava nos Estados Unidos. Era uma situação que exasperava bastante aqueles que aspiravam praticar as artes marciais. Bruce Lee tornou-se o portador de uma aproximação não tradicional. O que a maior parte das pessoas não imagina é que mesmo para Bruce foi um processo que evoluiu durante vários anos. Durante os dois primeiros anos que eu o conheci, Bruce era um indivíduo de dupla personalidade, que muitas vezes se extasiava com as qualidades dos diferentes estilos de Kung Fu durante uma conversação, para demoli-los em outra ocasião.

Repensando nisso, é fácil ver que Bruce Lee era jovem e inexperiente no seu conhecimento prático das outras artes marciais e, da sua própria inexperiência em Wing Chun, notava que existia uma hierarquia semelhante em todos os estilos de Kung Fu. Durante esse período dos anos 60, Bruce viajou para a Califórnia e Canadá, para observar e discutir com os mestres de Kung Fu. Frequentemente essas visitas tinham uma reação reticente por parte desses últimos, reação muito natural considerando-se sua idade e o fato de ser até então, pouco conhecido na comunidade do Kung Fu. Cada vez que permitiam que os visse trabalhando ou lhe mostrassem uma técnica, Bruce tratava imediatamente de torná-la mais eficaz, o que o tornava pouco simpático aos seus anfitriões. Muita experiências como essa reforçaram sua certeza de que a quase totalidade do que era ensinado em matéria de Artes Marciais era, de fato, pouco eficaz.

Lembre-se de que, durante todo esse período, Bruce treinava pelo menos 40 horas por semana. Ele estava no apogeu do desenvolvimento da sua arte e suas ações o provavam. Mais ele se aperfeiçoava, mais se importava com a tradição e repetia isso toda vez que tinha oportunidade. Suas palavras faziam vibrar a corda sensível daqueles que haviam assumido a bandeira da tradição. Eles se encontravam diante de um homem que ousava dizer o que pensava e cujas ações provavam a certeza de seus propósitos. Sua reputação crescia e as pessoas respondiam aos seus apelos, tal como o mago da flauta. O que preconizava para as massas era pelo menos verdadeiro para ele e demonstrava isso tranquilamente. O problema residia no fato de que suas teorias eram apoiadas em conhecimentos que as massas não possuíam.

Poucas pessoas tinham o potencial físico e a experiência que faziam com que as idéias de Bruce prosseguissem. Ele mostrava ao público a ponta do iceberg e não a base, escondida, que eram bem maior. As artes marciais tradicionais estavam destinadas ao combate e sua eficácia repousava, muitas vezes, nas exigências da época na qual tinham sido utilizadas. Frequentemente um clima de mistério envolvia estas artes, porque se eram muito propagados seus princípios de base, arriscava-se a torná-los ineficazes contra outras artes. Esta situação prevaleceu até o fim do século XVIII e começo do XIX e houve um movimento tentando vulgarizar algumas dessas artes orientais afim de que pudessem ser praticadas pelas massas. Tornaram-se principalmente esportes em vez de maneira de aniquilar ou combater seus inimigos – evolução que não agradou a todos. A maior parte das técnicas mais eficazes foram suprimidas ou minimizadas. Mas certas escolas escolheram permanecer como eram e praticam até hoje suas técnicas originais, desenvolvendo a agilidade em aniquilar seus inimigos.

Essas artes são menos conhecidas que as outras, porque escolheram ficar fiéis aos seus princípios de base. Um dos requisitos para aprender essas artes é praticar de modo intensivo, durante um período apropriado. Não se pode aprendê-las do dia para a noite, nem sem esforço. Seria loucura imaginar que um adepto das técnicas de Bruce possa aplicá-las contra um adversário poderoso sem desenvolver sua capacidade física para mover-se rapidamente e dar golpes de pés e punhos fortes.

Quando encontrei Bruce pela primeira vez ele dirigia suas pesquisas para o desenvolvimento de métodos de combate e não de técnicas destinadas a matar. Aprender a matar é diferente de aprender a combater. A maior parte das pessoas rejeita a idéia de matar porque aprenderam a não pensar nestes termos e na maior parte dos países há leis que proíbem a violência em qualquer circunstância. Os que desenvolvem métodos destinados a matar devem ser considerados como pessoas que vêem o combate como forma realista: morte e destruição. Os soldados fazem parte desta categoria. Aprendem a dominar as técnicas mais mortíferas e eficazes, porque quanto mais eles forem eficientes, mais ganharão as batalhas e mais viverão.

Poucos dos artistas marciais raciocinam nos mesmos termos, principalmente porque não sentem a necessidade vital de desenvolver a sua aptidão para matar. Bruce insinuava sempre que era necessário considerar seus inimigos como assassinos em potencial, mas não preconizava como meio de defesa pessoal, tornar-se um assassino em potencial. Há dúvidas em meu espírito de que Bruce fosse capaz de matar, mas era uma consequência da sua técnica de treinamento para o combate. A agilidade e a força de seus golpes de punhos e pés podiam matar, um pouco como o lutador de boxe que leva seu adversário para as cordas e continua a bater-lhe mesmo que ele não tenha mais capacidade de defender-se.

No passado essa focalização sobre a violência era uma razão de segredo. Se a arte marcial ia para as mãos de uma pessoa inescrupulosa, arriscava-se a matar inocentes antes que fosse impedida. A idéia de que o bem e o bom devem prevalecer não foi verificada por acaso. Quase sempre os maus a contradizem. O que isso têm a haver com Bruce Lee, dirão vocês? Encontra-se, em parte, nos seus ensinamentos. Para ter uma chance de defesa contra um verdadeiro assassino, é necessário desenvolver o potencial de ser um assassino, onde é preciso aprender as técnicas de Bruce. Não é suficiente saber que uma pessoa pode bater com uma força tal que pode matar. Essa pessoa deve conseguir essa força e, ao mesmo tempo, a disciplina de não usá-la, a menos que seja vital.

Como chegar a esse resultado? Estudei essas pessoas e as situações, a maneira como os combates começam, os meios onde eles geralmente se desenrolam e que espécie de pessoa os executa. Uma vez aprendida algumas dessas noções, começa-se a pressentir as dificuldades muito tempo antes que as pessoas comuns e se sai do caminho. Você deve esquecer cenas de cinema e aprender a encarar todos os combates como situações de ameaça de morte. Se não for uma situação séria, você chegará a se sentir envolvido e, ao contrário, se sentir-se envolvido saberá utilizar todos os meios para atacar, porque está em jogo a sua vida. A menos que não seja muito experiente, não pode revidar com hesitação e nem mesmo atacar.

A maior parte dentre nós não possui nem ao menos esta habilidade e como é difícil adquiri-la, devemos fazer o melhor com o que temos. A realidade física do JEET KUNE DO de Bruce Lee não é uma coisa que depende da sua presença. Antes da sua morte, Bruce havia fechado todas as suas escolas, um ato que parecia sugerir que não estava satisfeito com o desenvolvimento que compreendia sua arte. Se Bruce tivesse sobrevivido, é menos provável que a sua arte tivesse se expandido como é hoje. Depois da sua morte, sua arte ou tudo o mais que havia ensinado de sua arte, foi recolocado em moda e ensinado por todo o mundo. O problema dessa ressurreição é que apresenta somente a parte visível da prática de Bruce e não a base, com todas as primeiras etapas de sua evolução que o levaram ao seu mais alto nível.

A verdade é que o método de Bruce não pode sair resultados positivos se você não tiver, na base, predisposições físicas. Na maior parte, seus últimos alunos vinham de outras artes marciais e tinham já uma certa experiência em técnicas de pés e punhos. A primeira coisa que Bruce fazia consistia em fazê-lo utilizar melhor a potência e a rapidez que já havia adquirido. É fácil ver a extensão da arte de Bruce – e suas técnicas são muito eficazes – mas só com a condição de ter conhecimentos sólidos para desenvolvê-la. Da mesma maneira Arnold Schwarzenegger pode aconselhar um modo mais eficaz para desenvolver o seu corpo, tirado se sua própria experiência, mas você é que deve fazer os exercícios de resistência, se quiser progredir. E o mesmo para a técnica de Bruce, ela requer tanto um trabalho físico vertiginoso quanto a posse de reflexos excepcionalmente bons. O que é realmente perturbador no caso de Bruce Lee é que ele estava muito além do seu tempo, porque enunciou teorias nos fins dos anos 60 e começo dos 70.

O problema é que os tempos mudam e as situações também. Quando Bruce começou a falar do declínio das artes marciais, ele falava de um ponto de vista muito limitado. Havia encontrado grandes “Experts” em artes marciais nos EUA, pessoas que certamente eram muito competentes, mas Bruce não tinha fácil acesso a elas naquele tempo. Porém estava em contato com Nishiyama. Eu estava lá com um amigo quando Bruce o conheceu em uma demonstração. As pessoas que não são dotadas de qualidades físicas excepcionais não podem simplesmente praticar as técnicas de Bruce Lee e esperar competividade diante de outros praticantes dotados de melhores qualidades físicas. Isso seria impossível.

Nota: Jesse R. Glover foi o primeiro aluno de Bruce Lee nos EUA e é autor do livro “Bruce Lee Between Wing Chun and Jeet Kune Do”.

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Postado por: Vinícius Lee

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