Morre Run Run Shaw (1907-2014): o inventor do kung fu que deixou escapar Bruce Lee

A sua aposta no cinema de acção e artes marciais, que viria a ser definido conhecido como “kung fu”, fez a sua fortuna.
Sir Run Run Shaw fotografado em 2008 em Hong Kong AFP

Quando perguntaram a Sir Run Run Shaw, falecido terça-feira na sua casa de Hong Kong aos 106 anos de idade, quais eram os seus filmes preferidos, a resposta não se fez esperar: “Gosto particularmente dos filmes que dão dinheiro.” E os filmes que produziu através da sua companhia Shaw Brothers deram-lhe muito dinheiro a ganhar, tornando-o bilionário, fazendo de Hong Kong um centro de produção vital no cinema asiático, e criando um mercado internacional para os filmes de artes marciais que influenciaram toda uma geração de cinéfilos.

Quentin Tarantino homenageou a empresa no genérico de Kill Bill. E o catálogo de filmes do estúdio foi, na década de 2000, alvo de um cuidado trabalho de restauro e disponibilização em DVD que permitiu descobrir, pela primeira vez fora dos países asiáticos, a verdadeira dimensão criativa e artística destes filmes que, em Portugal, estreavam em versões cortadas, dobradas em inglês, em cinemas populares como o Eden, o Politeama ou o Roxy. Filmes como A Fúria do Tigre, A 36ª Câmara de Shaolin ou Punho Sangrento têm sido redescobertos ao longo dos anos, justificando o estatuto de culto que os conhecedores lhe foram atribuindo ao longo dos anos.

Run Run Shaw chamava-se na verdade Shao Yifu e o nome “Run Run” foi a alcunha inglesa que o pai lhe deu, fazendo um trocadilho com a proximidade do apelido chinês, Shao, à palavra inglesa “rickshaw” – riquexó. Filho de um comerciante de têxteis de Xangai, Shaw e o seu irmão Runme iniciaram-se no cinema na sua China natal em 1924, mas transplantaram-se para Singapura em 1927 para escapar às guerras civis entre nacionalistas e comunistas.

Após a II Guerra Mundial, Runme manteve-se em Singapura e Run Run mudou-se para Hong Kong, que se tornara entretanto no primeiro mercado comercial para o cinema chinês. Construindo em Hong Kong o complexo de estúdios Shaw Movietown e mantendo actores e técnicos sob contrato permanente, Sir Run Run Shaw veio modernizar a produção de cinema de acordo com o velho sistema de estúdios de Hollywood, controlando produção, distribuição e exibição através de uma cadeia global de salas de cinema. E a sua aposta no cinema de acção e artes marciais que viria a ser definido internacionalmente como “kung fu” provaria ser a fortuna da empresa.

O eclipse da Shaw coincidiria com a ascensão da Golden Harvest, empresa concorrente fundada por um antigo produtor da casa, que contratou Bruce Lee após a Shaw ter recusado dar controlo criativo total ao actor que se tornaria numa autêntica lenda do cinema de artes marciais. Shaw diversificara entretanto o seu portfólio para a televisão, e tornar-se-ia igualmente num filantropo de renome junto de universidades, orfanatos e hospitais na cidade, tendo sido condecorado pela rainha Isabel II como Comandante da Ordem do Império Britânico em 1974 e feito Cavaleiro em 1977. Com a chegada da década de 1980, quer a Shaw Brothers quer a Golden Harvest seriam eclipsadas pela nova geração de cineastas de Hong Kong liderada por John Woo ou Tsui Hark – que, ironicamente, haviam aprendido tudo nos filmes da dupla.

Casado por duas vezes, Sir Run Run Shaw morreu em sua casa em Hong Kong, aos 106 anos de idade, deixando quatro filhos do seu primeiro casamento, nenhum dos quais seguiu nas pisadas do pai e do tio.

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Postado por: Vinícius Lee

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